segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Troquei os cigarros por sorrisos

Fez ontem quinze dias que deixei de fumar. Adoro fumar, é algo que apesar da consciência de todo o mal associado gosto de sentir; acender o cigarro, dar a primeira passa que é sempre a que me sabe melhor, manusea-lo entre os dedos. Gosto do cheiro, do sabor, da forma como me tranquiliza.

Há quinze dias tomei a decisão de deixar de fazer uma das coisas que mais prazer me dá. Não foi pelo mal que faz à saúde, não foi pelo preço exorbitante. Tomei essa decisão depois de olhar para a miúda e ela me ter dito que uma das coisas que a deixava mais triste era eu não parar de fumar e que provavelmente a iria deixar por causa de uma doença associada ao tabaco.

Mais do que as palavras , foi o olhar dela enquanto me dizia o quanto a assustava eu poder contrair uma doença grave provocada pelo tabaco, que me fez tomar essa decisão com efeito imediato. Não quero perder a miúda para uma doença que me leve à morte; mas mais do que isso não quero que os meus actos sejam motivo de tal angústia. A mesma angústia que eu vi nos olhos dela enquanto me dizia o quanto lhe custava eu fumar.

Passaram quinze dias e não está a ser nada fácil. Gosto demasiado daquela merda. Custa-me imenso dormir, concentrar-me . Faço um esforço enorme para ter paciência para as coisas mais insignificantes. Masco pastilhas elásticas, por vezes saio de casa porque parece que a minha cabeça vai explodir e tenho de apanhar ar.

A miúda pergunta-me como está a correr eu respondo sempre que está a correr bem. Na verdade está a correr bem porque há quinze dias que não fumo, independentemente de todo o sofrimento associado. Deixei algo de que gostava muito, por algo bem maior. Ter a noção do quanto ela ficou feliz com esta minha decisão, de que aquilo que ela sente devido a alguns actos meus; medo, tristeza, incerteza, tem muito mais relevância do que qualquer cigarro.

Não deixei de fumar por mim, também não foi por ela. Deixei de fumar porque causava sofrimento em alguém de quem gosto muito e não o fazer seria um acto de egoísmo para com a mulher que eu amo e prometi proteger.

domingo, 30 de outubro de 2016

Kit de emergencia para a miuda

A miúda quando decidiu voltar a estudar, tinha a noção exacta que não iria ser fácil. Se fosse fácil também não era para ela. Decidiu inscrever-se em Medicina, não só por ser algo que a cativa, mas sobretudo pelo desafio.
Desde que ela tomou essa decisão, apoiei incondicionalmente por ter a certeza de que além de ser algo que ela queria muito, também por saber que seria capaz. Que conseguiria alcançar esse objectivo.

Apesar de tudo gostava de poder fazer mais para ajudar. Hoje senti-me um pouco egoista por ter saído de manhã e ter ido passear junto ao rio, enquanto ela estava presa à secretaria a estudar. Sei que foi a escolha foi dela é que é isso que lhe faz sentido.
Precisava de fazer alguma coisa. De que forma poderia contribuir para ajudar a minha miúda e amenizar todo o esforço que ela tem feito nos últimos tempos?     
Ainda pensei escrever uma carta ao Prof. Marcelo para lhe dizer o quão fantástica é a miúda e que ele  podia falar com o Bastonário da Ordem dos Médicos e dar-lhe já a cédula profissional, mas desisti porque o nosso Presidente ainda tem a carta da estudante que não conseguiu entrar em Medicina para ler. Então resolvi ajudar de outra forma. Criar um Kit de emergência para estudantes desesperadas. Aqui vos deixo o meu kit e pode ser que ajude mais alguém.


Final de Domingo

Nada como passar um final de Domingo a ver uns desenhos animados onde uma fatia de pizza com óculos escuros é a melhor amiga de um tipo desdentado chamado Titio Avô...

sábado, 29 de outubro de 2016

O silêncio de um final de dia perfeito

No

Vou falar de algo que me faz alguma confusão. Pai Solteiro. Afinal qual é a diferença entre um pai que vive com a mãe do seu filho e um que viva sozinho?

A responsabilidade, a atenção, a cumplicidade, a interação e a disponibilidade que sinto hoje em relação ao Kukas, são exactamente as mesmas que sentia quando vivia com a mãe dele.

O dia de ontem pode servir como exemplo prático daquilo que estou a falar:
Saí do emprego às 18 horas, fui buscar o Kukas ao Colégio. No carro negociámos como iria ser a nossa noite. Admito que ele é um negociador bastante difícil.  Ficou acordado que chegaríamos a casa e a primeira coisa seria o Kukas tomar banho, ele ainda tentou que primeiro via dois desenhos animados e tomaria banho depois, obviamente o Papá venceu a disputa.

Chegados a casa, fomos directos à casa de banho, cocó seguido de banheira. De seguida foi a escolha do pijama, tarefa também sempre muito discutida. Pijama vestido, fomos para a cozinha, enquanto eu fazia o jantar, ele brincava com os seus bonecos na mesa ao meu lado. Jantar ao lume, tratar das gatas e apanhar a roupa que estava estendida enquanto ele via o Titio Avô na TV.  Tínhamos cerca de 45 minutos antes de jantarmos, fomos então buscar as tropas e planear um ataque nas montanhas dos Açores.

Hora de jantar, depois de o ter chamado cerca de 22 vezes para a mesa, lá apareceu e sentou-se. Assim que se sentou pediu para ir à casa de banho fazer xixi (faz sempre isto) . Hoje o Kukas decidiu que não gostava de arroz. Eu decidi que quem não gostava de arroz, não gostava também de jogar no Tablet nem brincar com bonecos. O arroz lá desapareceu do prato.

Lavar as mãos e os dentes gera sempre alguma discórdia: - Já lavei os dentes ontem papá. Eu respondo: - Já te comprei um presente no Natal passado, então este ano não preciso comprar. A rapidez com que ele foi lavar os dentes foi supersónica.

Hora de ir para a sala relaxar, enquanto o Papá sorri com o resultado do Benfica e depois com o do Sporting, ele usa a minha barriga como base de comando das tropas. Finalmente o sono vence e ele adormece no sofá .

Entretanto a miúda que esteve a trabalhar até às tantas adormece tb ao meu lado. Tenho o meu Príncipe e a minha Princesa exaustos a dormirem, uma das gatas deitadas na minha barriga e a outra aos pés do Kukas.

Reina uma Paz tão acolhedora nesta sala, que me sinto previligiado por ter isto só para mim.
Hora de os deitar, levo o Kukas para a cama dele, enquanto a miúda se arrasta para a nossa cama. Deito-me, abraço-a e ela cede novamente ao cansaço adormecendo nos meus braços. Final perfeito para um dia vivido a correr.

Quatro da manhã, acordo com o choro do Kukas, vou ao quarto dele e ele chora porque diz ter muitas dores nas pernas. É recorrente, a pediatra chama-lhe "dores de crescimento" . Vou buscar o Ben-u-ron e o Voltaren gel. Dou-lhe o xarope e massajo-lhe as pernas com o gel enquanto ele chora e me pede para não parar de o massajar. Fico ali durante meia hora até que finalmente ele adormece e volto para a minha cama.

Oito da manhã, tenho o Kukas deitado ao meu lado a dizer que quer levantar-se e quer beber um leitinho na sala a ver Televisão.

Nada daquilo que relatei aqui é novo para mim, desde o dia em que ele nasceu, esta tem sido a minha realidade; será que os pais casados têm alguém que os substitua com os filhos?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A minha Vertigem convertida em Vertigo por ela.

https://youtu.be/Tgcc5V9Hu3g

 Vou voltar à miúda, a minha miúda. Durante aqueles primeiros dias de descoberta, a insónia apoderou-se de mim. Não dormia, todo o tempo em que ela permanecia na minha cabeça era mágico. As minhas noites sem dormir eram uma espécie de  ritual de contemplação.
Estava a dar inicio à minha Metamorfose. A Crisálida estava a transformar-se em borboleta.

Um turbilhão de sentimentos assolavam-me e eu bebia-os com uma compulsividade consciente. Nada me fazia mais sentido do que aceitar tudo aquilo que aquela miúda provocava em mim.

Deixei o cepticismo e comecei a acreditar na magia; não havia outra forma. Nada daquilo eu tinha experimentado até então. Tornei-me homem de fé e percebi que existem coisas que não são palpáveis, mas que estão lá e que nos enrolam num manto de encanto e de conforto.

Após muitas noites sem dormir, finalmente cedi. Deixei-me entregar nos braços do sono. Foi intenso aquilo que se passou nessa noite enquanto dormia. Tive um dos sonhos mais estranhos de sempre.
Sonhei que estava em Paris, no Centro Georges Pompidou. Enquanto o percorria, fui dar a uma sala onde estava patente uma exposição fotográfica. Todas as fotografias expostas eram rigorosamente iguais; a cara de uma mulher(a miúda).  Fui olhando uma a uma e apesar de todas iguais, em todas elas eu encontrava uma característica diferente. Não conseguia deixar de olhar para elas, aquelas imagens entravam cada vez mais dentro de mim, como se fossem peças de roupa que iam vestindo o meu corpo nú.

Na sala ecoava o Heroes do David Bowie, a atmosfera era densa e tão suave ao mesmo tempo. Eis que olho para o canto da sala e vejo-a ali, a mulher que estava retratada nas fotos. Em pé, de olhar distante, como se só o seu corpo ali estivesse. Quis dirigir-me a ela, queria saber mais sobre aquela mulher que tanto fascínio exerceu em mim. Não consegui, senti que se o fizesse iria estar a arruinar aquele momento que involuntariamente eu tinha conquistado.

Fiquei na sala até o segurança me pedir educadamente para sair, pois o Centro ia fechar.
Sai dali e comecei a deambular por Paris, a noite chegava lentamente conferindo uma luz pálida sobre as ruas empedradas.

Chego a um largo, onde me sinto atraído a entrar numa casa de chá de portas vermelhas. Lá dentro olho em redor e numa mesa lá está ela, a miúda das fotografias que me turvava os sentidos desde que entrei naquela sala de exposições...

Contei este sonho à miúda e ela escreveu um texto acerca da visão dela do meu sonho. Confesso que foi dos textos mais deliciosos que já li. Sobretudo pela simbiose que senti entre o meu sonho e a visão dela do mesmo.

Pedi-lho emprestado para complementar este meu texto e ela depois de muito ponderar acedeu. Aqui fica o Texto da miúda sobre o sonho do rapaz:

 Vertigo

“(…)I, I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can beat them, just for one day(…)”.

A melodia era-lhe familiar. As palavras atingiam-no em parcelas, cujo sentido, sustentado apenas pela memória de um outro tempo. Invadiam-no, numa luta inglória, contra o pensamento em tropel, aturdido pelo caos que o assaltara. Paris, hoje apenas moldura. Pompidou, o suporte físico do espaço que a realidade exigia, mas que no sonho, indiferente.
Naquele momento, em que a fantasia lhe sorveu o real, os sentidos perderam o norte, a melodia marcou o tempo e o resto, apenas cinzas, de uma realidade inútil, subjugada perante a emoção avassaladora.
A imagem repetia-se ao longo da sala do museu. Entrara por curiosidade, pelo gosto amador pela arte da fotografia. Pela ideia de reter o tempo e as lembranças em pequenos fragmentos tocáveis, acessíveis para a eternidade.
Via-se agora entorpecido, perante a presença cativante da imagem daquela mulher multiplicada naquelas paredes.
Percorreu os retratos expostos com a perícia que a obsessão impunha e embora estivesse certo de tratar-se sempre do mesmo, a cada vislumbre a percepção de uma diferença indefinível. Como se da arte, a vida. Como se as imagens ao sabor de cada segundo. Plenas e mutáveis. Como se o tempo, domínio daquela mulher. Sedutoramente imperturbável, sentada à mesa de uma casa de chá entregue às páginas de um livro.
Sabia-a real e a autora daquelas fotografias, auto-retratos, embora nunca a tivesse vislumbrado.
Agora o desejo atingia-lhe o âmago com a sagacidade de lanças de guerra. Sentia-a com cada poro do seu corpo, como se na pele, toda a fome do mundo, pelo aroma do seu perfume. Queria tocá-la com o desespero que assola as paixões impossíveis. Desejava morrer ali, à mercê da espera, escrutiná-la com a minúcia de um mistério insondável permitindo-se, o deslumbre a cada detalhe da sua descoberta.
Se lhe sugerissem que traduzisse por palavras a vertigem que o tomara, teria sido incapaz. Há sensações que cabem apenas no silêncio, conduzidas pela fluidez do pensamento quando desapossado da fria e castradora moldura da razão.
Entregou-se à espera durante horas, cujo devaneio da fantasia fez parecer breves minutos. O aviso do segurança convidando-o a sair acordou-lhe a consciência do tempo real. Que o fim da tarde, hora de fecho. Engoliu a revolta pela injustiça do abandono daquelas imagens ao sabor da noite, da privação ao seu universo, que agora cabia naquela sala, de as usufruir pelo prazer de apenas olhar.

Precisava sentar-se e devolver aos sentidos, a realidade. Vagueou algum tempo até ceder ao chamamento das portas encarnadas de uma casa de chá. Entrou. Lá dentro, mais uma vez a melodia era-lhe conhecida.


(…) You don't move slow And taking steps in my direction The sound resounds, echo (…)”.
 
O chão pareceu fluir-lhe abaixo dos pés quando a cena do retrato lhe surgia agora tão física. Apoiou-se na parede, tentando afastar a tontura que o assolou. Sentia a insanidade a apossar-lhe as entranhas e os órgãos vitais. A completa embriaguez dos sentidos.

“(…) Glaciers melt into the sea I wish the tide would take me over I've been down on my knees And you just keep on getting closer (…)”.
 
Abriu os olhos e o reflexo do seu delírio, intacto.
A arte convertida em vida. Ali estava ela, mulher, intocável, sentada na mesa desta casa de chá entregue à leitura de um livro. Tomado da febre que a paixão violenta evoca avançou ao seu encontro. E com esforço para que as palavras trôpegas soassem audíveis, atreveu-se. “Posso sentar-me?”.
A mulher manteve-se imóvel, sem elevar o olhar. Como se a presença dele, nada. Como se a realidade e a fantasia, dimensões paralelas, intangíveis. Permaneceu de pé por tempo imensurável. Ousou sentar-se, depois. Fitou-a, como se da sua realidade, o privilégio de uma janela para um lugar onírico, para lá do corpóreo e da humanidade do ser. A comoção confiscara-lhe os gestos, sentia-se a cruzar o limite das coisas possíveis, consciente de que em breve aquele momento se dissolveria, tornado memória, jazigo em campo-santo do mundo real.


“(…)Go slow Go slow Go slow Go slow Go slow (…)”.

Deixou-se ficar pela eternidade que lhe coube dentro da música, que ao terminar o atentou para a vida. O êxtase de todos os sentidos. Incapaz de tanto de uma vez apenas, empreendeu esforços no alcance de rasgos de consciência que lhe permitiram conduzir os passos para fora daquele lugar.
Caminhou desorientado pelas ruas rendido perante a inevitabilidade da entrega ao sufocante padrão repetitivo do mundo tocável, convicto de que toda a tristeza do universo se lhe aninhara no peito, jazendo-lhe no corpo autómato.

Enquanto caminhava, alguém lhe tocou o ombro. Aquele perfume. A imagem daquela mulher perante si, que agora lhe tomava a mão, ocupando o limite espacial que lhe possibilitava o raciocínio. Precisou recordar-se de como respirar. Incapaz de ordenar aos músculos do seu corpo qualquer movimento, deixou-se conduzir pelo delírio. Seguiu-a enlaçado nas teias invisíveis da atração, como se cada célula do seu corpo agonizasse pela presença daquele ser. Seguiu-a, conduzido à porta de um prédio e depois pela enorme escadaria que percorreu degrau a degrau até a um apartamento antigo e espaçoso.
Entenderam-se através do olhar, num silêncio onde couberam todas as palavras que a realidade não pode conter. Entenderam-se através do silêncio, comparsa de todas as possibilidades que cabem nos meandros das almas despidas. Todas as respostas estavam naquele momento, como se ali a essência de todas as coisas.
Aproximaram-se rumo à inevitável plenitude da magia do entendimento mútuo. “Ele podia jurar que sentia a temperatura dela a aumentar através dos seus lábios”. Todas as palavras não ditas, inúteis perante tamanha compreensão.
Depois do sonho, o silêncio. Para sempre, subterfúgio das almas que se encontram sem poderem dar a mão.

 
Palavras de S.
Sonho de J.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Por vezes o melhor lugar está aqui ao lado





Hoje quando acordei senti uma vontade enorme de estar num sitio perfeito, acolhedor, quente. Cheguei-me para ti, abracei-te e durante cinco minutos  viajei para esse lugar mágico e único que é a tua presença.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Depressão e prisão de ventre.

Nos últimos dias o Kukas  andava com um ar bastante triste. Apático, pouco expressivo, com uma postura completamente diferente da habitual. Não queria comer, muito sensível e eu questionava-o repetidamente sobre a causa daquela tristeza. Dizia sempre que não estava triste, apenas que tinha sono.

Comentei com a mãe e tentei perceber se em casa dela o estado de espírito dele era semelhante. Ela disse-me que o achava normal. Fiquei ainda mais preocupado, seria um problema comigo? Apesar de tudo isto ele queria sempre ficar a dormir em minha casa, então perguntei-lhe se havia alguma coisa em casa da mamã que o deixasse triste. Também não, foi a resposta dele.

Nos dois últimos dias queixava-se de dores de barriga, mas normalmente ele usa esse estratagema quando não quer comer. Lembrei-me então que a primeira coisa que o kukas faz quando chega a minha casa é ir à casa de banho fazer cocó e chamar-me depois para lhe limpar o rabo e nos últimos dois dias ele nunca fez na minha casa. Ele é tão certo nessa questão, que por norma faz duas ou 3 vezes desde que chega do Colégio até se deitar para dormir. Ontem liguei à mãe e perguntei-lhe se ele ultimamente em casa dela tinha feito cocó e ela respondeu-me que de facto desde Domingo que não fazia. Pedi-lhe para o sentar na sanita e tentar que ele fizesse.

 Passado cerca de uma hora toca o meu telemóvel, atendo e era o Kukas que com uma voz super feliz me disse: - Papá, fiz um cocó gigante e ja não me dói a barriga.

Fiquei aliviado, agora percebo a razão pela qual as mulheres com prisão de ventre são tão dadas a depressões.  Melhor que Prozac, é um bom cocó.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A angústia que não queria companhia

Tinha 41 anos, vivia com a minha ex-mulher e tinha um filho de três anos. Hoje à distância não me consigo lembrar se era feliz, ou sequer se conseguia sentir o que quer que fosse. Ansiava pelo fim do dia para estar com o meu filho, isso lembro-me bem que era a única coisa que me provocava estímulos; estar com o meu Kukas. Sentia-me preso a algo do qual eu não me conseguia libertar. Não sentia Amor, não sentia Paixão, não sentia ódio. Vivia numa letargia permanente e a existência do Kukas já não era suficiente para a minha vida se tornar no mínimo suportável. Não sei também se ansiava por mais do que aquilo que tinha. Como aquelas pessoas que não sentem falta daquilo que não conhecem.

Naquele dia fui à pastelaria onde sempre vou beber café de manhã. Quando entrei ela estava sentada numa mesa, olhei para ela e o ar angustiado com que estava chamou-me a atenção. Nunca havia falado come ela, pedi para me sentar e perguntei-lhe se estava tudo bem, se precisava de algo. Olhou para mim com um ar evasivo e vazio e disse-me que estava tudo bem. Não me convenceu, voltei a questionar se estava bem e ela voltou a dizer que sim e percebi pela sua cara que a minha presença a estava a incomodar.

A miúda estava a trabalhar na porta ao lado da minha há cerca de um ano e eu apesar de já a ter visto várias vezes, nunca havia reparado nela. Pensando melhor, já tinha reparado naquela miúda que todos os dias passava na minha Rua, com um andar apressado e desajeitado e sempre de phones nos ouvidos e que perante aquela visão me fazia sempre esboçar um sorriso. Porém, até aquela manhã no café, nunca havia reparado na miúda do andar desengonçado, desta forma tão cativante.

Quis saber mais sobre aquela pessoa que me despertou de repente tanto mistério e interesse.
Fui escrutinar as redes sociais e lá a encontrei. Um dos seus filmes favoritos, era também o meu. As suas músicas eram também as minhas. A forma como escrevia tocava-me de uma forma que de repente comecei a sentir coisas que há muito não sentia. Tornei-me compulsivo em querer conhecer cada vez mais aquela miúda de ar angustiado. Havia uma certa nostalgia nela que me fascinava. Pedi-lhe amizade numa das redes sociais e só me aceitou algum tempo depois; demasiado tempo para mim na altura.

Começámos finalmente a falar. A cada mensagem trocada, o fascínio por ela aumentava. Descobri finalmente porque naquele dia na pastelaria estava com aquele ar tão angustiado; estava com uma crise de vesícula, cheia de dores e sem paciência para um tipo chato que só lhe fazia perguntas sobre o seu aparente estado de espírito de tristeza e angústia.

A partir daquela manhã, o meu estado vegetativo começou lentamente a desaparecer. De repente um turbilhão de sentimentos inundou-me. Confesso que por mais gratificante que fosse, era-me igualmente muito difícil lidar com tudo aquilo que de repente começava a despertar em mim. Hoje sei que fui salvo por aquela miúda, a minha miúda. Era um ser desalinhado que graças a uma pessoa completamente improvável,  comecei a querer mais, a desejar um caminho que me levasse de novo à vida, que me fizesse chorar e rir, que me levasse a arriscar sem medo de cair.

Voltarei noutro dia à miúda do andar desajeitado, tenho tanto a dizer sobre ela e sobre a forma como ela me salvou de mim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Kukas, Patokas e o Papá

Desde o primeiro dia de vida do meu filho percebi que o meu Mundo tal como o conhecia havia mudado para sempre. Uma espécie de upgrade com a responsabilidade de fazer actualizações diárias.
Já tanto se falou sobre o amor e a paixão, tanto se dissertou sobre estas questões tão metafísicas.

 No dia em que o Kukas nasceu compreendi finalmente o que é  Amar, mais do que percebê-lo, senti-o. O Amor é aquela coisa que nos consome, de uma forma tão quente e tão suave que nos desperta novos sentidos até aqui desconhecidos. No Amor tudo cabe, tudo faz sentido e mesmo o medo que por vezes acarreta torna-se tão leve que o peso se transforma em conforto.
Amo-te Filho.


domingo, 23 de outubro de 2016

Kukas nos Açores


No ano passado quando me separei da mãe do meu filho, fui pela primeira vez aos Açores, mais concretamente a São Miguel. Fui com a pessoa com quem partilho hoje a minha vida. Uma mulher fantástica que me devolveu a capacidade de voltar a sentir. Nessa viagem além do deslumbramento provocado pela ilha, encontrei um lugar que sem eu saber, já me pertencia por direito( parece mesmo daqueles clichés tipo Gustavo Santos, ou Paulo Coelho).
Este ano eu e a Minnie ( assim baptizada pelo meu filho), decidimos vir de novo a São Miguel e trazer o Kukas connosco. Quando lhe dissemos que vínhamos os três de férias aos Açores, ficou excitadissimo. Todos os dias perguntava quantos dias faltavam m para irmos de férias: - Faltam três meses filho. Isso são quantos dias papá? São noventa dias filho. Mostra com os dedos papá. Oh, isso são ainda muitos dias Papá.

Assim foram todos os dias durante três meses até que finalmente chegou o tão ansiado dia. Era hoje que íamos de férias para os Açores. No avião ficamos em frente a três pessoas com idade de reformados. Não, ficámos em frente a três velhos chatos como o caralho; para uma delas era o seu baptismo de voo, a mesma que me deu uma cacetada na cabeça que me projectou os óculos pelo corredor do avião. Não parou quieta durante todo o voo, dando joelhadas no banco da minha namorada como se tivesse passado todo o voo a lutar muay thay.  O fato de o Kukas dizer repetidamente que o aviao ia cair também não deve ter sido grande ajuda.
Finalmente lá aterrámos e fomos à procura de um táxi para nos levar a casa de uma amiga que nos iria emprestar o carro durante a nossa estada na ilha. No táxi, depois de o taxista nos questionar sobre o destino, o Kukas perguntou- nos se o senhor estava a falar inglês.

A Minnie tinha uma surpresa preparada, havia feito uma reserva no Hotel Terranostra para a nossa primeira noite. Uma suíte fabulosa, com acesso à piscina do jardim, à piscina interior, sauna, banho turco, etc..  O Kukas quando viu o Hotel, disse: - Uau, que chique. Antes de chegarmos ao Hotel fizemos uma paragem na lagoa do Congro. Para mim uma das mais belas de São Miguel. Lugar místico onde reina um silêncio e uma paz tão únicos, que só ali os encontrei.
Chegados ao Hotel, vestimos os nossos robes brancos, agarrámos nas toalhas e lá fomos para as piscinas exteriores com água a 39 graus centígrados. Estava ali o Paraíso e nós no meio dele. Pouco importa que os nossos fatos de banho fiquem castanhos para sempre, ou que o nosso cabelo precise de doses indústrias de amaciador para se conseguir desembaraçar, aquela água vale qualquer sacrifício.

Hora de almoço e lá fomos pela vila das Furnas à procura de um sítio onde comer. Enquanto andávamos encontrámos um que pelas Fotos expostas dos pratos, nos deixou com grandes dúvidas, ainda assim a fome venceu a potencial pouca qualidade da comida. Olhando para a carta, um dos pratos do dia era o famoso Cozido das Furnas, já o tínhamos provado no ano passado no restaurante onde é considerado o melhor da região e não tínhamos gostado assim tanto. Decisão difícil, escolher um restaurante manhoso, e pedir um prato que feito no melhor restaurante não era assim tão bom. Óptima decisão afinal, o cozido estava fantástico. Até o Kukas que a princípio fez birra porque queria batatas fritas, acabou por comer tudo aquilo que lhe coloquei no prato.



Quantum Entanglement

Sexo e pizza

Já salientei o facto de vivermos a mil à hora. Hoje, Sábado, ambos fomos trabalhar. Ultimamente a abstinência tem reinado cá em casa. Quando finalmente chegamos à cama o cansaço e o sono não nos deixam tirar a roupa. Sinto falta dessa intimidade, de fazer amor com a miúda.

 Quando às 19 horas entrámos  em casa comecei a planear a nossa noite; tratar das gatas, fazer o jantar, descansar um pouco enquanto víssemos o telejornal e finalmente pinar. A miúda sugeriu algo diferente: Colocar a pizza no forno, e irmos a correr para a cama pinar enquanto a pizza ficava pronta.  Na embalagem o tempo de cozedura era de 6 a 7 minutos. Não havia tempo a perder, fui a correr baixar a temperatura do forno de 200 graus, para 170 na esperança de ganhar mais 2 ou 3 minutos. Despi-me entre a cozinha e o quarto, saltámos os preliminares e tentámos pinar sem fodermos a pizza. Missão cumprida.

 Ansiamos por Fevereiro, final dos exames para nos entregarmos um ao outro durante um pouco mais do que o tempo que uma pizza ultra-congelada demora a cozer no forno.

A sugestão dela veio a confirmar-se bastante sensata, uma vez que após jantarmos, deitámo-nos no sofá a ver o Sérgio Rossi disfarçado de Mariza no Carnaval de Torres Vedras e eis que toca o telefone das urgências. Um cão com uma otite. Despimos os pijamas, acabados de vestir e lá fui levar a miúda à Clínica. Deixei-a e vim para casa rir-me com o Jorge Jesus a lamentar-se porque empatou o jogo com o Tondela porque o sacana do árbitro concedeu 1 minuto a menos nos descontos.

Entretanto a miúda chega a casa, passavam largos minutos da meia noite. Decidimos ir para a cama, porque ambos tinhamos de acordar cedo, eu para vir trabalhar e ela para ir estudar Anatomia. Assim que ela vestiu o pijama, o telefone das urgências voltou a tocar ( confesso que olhei para ela e não contive uma enorme gargalhada, ela nem queria acreditar), era uma senhora que tinha um cão que estava a chorar e mais uma vez, despimos o pijama e lá fui solidário levá-la novamente à Clínica.

Voltei novamente para casa e para recuperar a boa disposição que tinha ficado perdida quando me roubaram a miúda duas vezes nesta noite, fui rever o Sérgio Rossi.
Ela voltou, deitou-se na cama ao meu lado e adormecemos em uníssono, cansados mas juntos finalmente.

sábado, 22 de outubro de 2016

Aconchego

São 21 horas. Estás deitada na sala ao meu lado com a tua cabeça sobre o meu ombro. Olho para ti e adormeceste. Acordaste às 06 da manhã, foste para a faculdade onde estás a tirar Medicina. Saíste das aulas a correr para apanhares o comboio que te trás para o teu emprego onde ficarás até às 20.

Vens para casa, trazes o peso do Curso e os casos complicados que te surgiram no emprego nesse dia. O teu ar é cansado, mas ainda assim sorris porque estás a concretizar o teu sonho.

Enquanto sinto a tua baba inundar-me o peito, experimento um misto de orgulho e de conforto. Orgulho na mulher que está aqui deitada ao meu lado e que luta diariamente pelos objectivos que traçou para a sua vida e conforto por sentir que aqui nos meus braços nada de mal te vai acontecer.

O meu braço começa a ficar dormente, mas não ouso sequer tirá-lo debaixo da tua cabeça; o meu sacrifício comparado com o teu nada pesa.

Quando te conheci fiz-te algumas promessas, todas elas cumpridas até ao dia de hoje. A mais importante que te fiz foi a de que te iria sempre proteger. Quero que os teus sonhos sejam também os meus, que as tuas vitórias sejam também as minhas e que a tua felicidade seja uma constante.
Enquanto dormes, exausta, mas tranquila, recordo tudo aquilo que já me deste. A tua entrega, a tua esperança que muitas vezes me emprestaste por a minha andar perdida.

Antes de chegares a casa, aspirei-a, fiz o jantar, limpei o cocó das nossas gatas, apanhei a roupa que estava estendida e assim tive-te um bocadinho só para mim, sem precisares de fazer mais do que me dares uma hora da tua companhia. Hoje dou mais valor ao Tempo, aproveito os segundos, porque cada segundo é importante. Vives a mil à hora, vivemos a mil à hora, mas quando conseguimos parar e termo-nos um para o outro tudo faz sentido e vale a pena.

Enquanto dormes nos meus braços eu  sei que o teu lugar é ali naquele exacto momento e que eu não quereria estar senão ali, junto a ti.