quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Sporting e cocó

Ontem era dia de Sporting-Real Madrid para a Liga dos Campeões. Tinha tudo programado para fazer o jantar e às 19.45 horas sentar-me tranquilamente  no sofá a ver o jogo.
às 19:00 horas liga-me a mãe do Kukas a perguntar-me se ele podia dormir em minha casa. Claro que sim, respondi eu.

Alteração de planos, precisava de ir ao supermercado, dar banho ao Kukas e fazer o jantar até começar o jogo. Fui a correr ao Supermercado, cheguei a casa e comecei a preparar a refeição .
O Kukas veio ter comigo à cozinha informar-me que ia fazer cocó e que depois me chamava para lhe limpar o rabo.
Estou na cozinha e ele chama-me. 
Achei que tinha sido demasiado rápido, quando entro na casa de banho ele está com as mãos completamente cheias de merda. Foi um acidente papá,  dizia ele enquanto eu olhava para aquele quadro de miséria. Fui a correr à cozinha colocar o bico do fogão no mínimo, voltei a casa de banho para lhe lavar as mãos,  o sabonete líquido tinha acabado. Disse-lhe para não tocar com as mãos em nada, fui buscar gel de duche e lá lhe lavei as mãos.  Quis dar-lhe banho de seguida, mas ele ainda tinha mais cocó para fazer. Voltei para a cozinha e para o jantar. O Sporting entretanto já tinha começado.  Chamou-me e disse que já tinha feito cocó,  limpei-lhe o rabo e comecei a despi-lo para lhe dar banho. Começou a resmungar que já tinha tomado banho "no outro dia". Lá o convenci a entrar na banheira, mas queria a banheira cheia. Dei-lhe banho enquanto a banheira enchia e deixei-o lá depois a brincar dentro de água enquanto fui acabar o jantar.

Jantar pronto, volto à casa de banho para o tirar da banheira e quando la chego tudo o que era embalagens estava dentro da banheira, champoos,  gel de duche,  cremes hidratantes, um banco , etc.
Limpei-o, vesti-lhe o pijama e entretanto o jogo estava no intervalo.

Resumindo,  não faças planos que só da merda.





segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Adeus Pirata

No sábado à noite quando chegámos a casa o nosso chinchila pirata estava morto na sua gaiola. O Pirata foi um Presente de aniversário do Kukas.  Ficámos obviamente tristes, mas fiquei também sem saber como dar a notícia ao meu filho.

Este ano é o segundo animal de estimação que ele perde. Há uns meses foi a tartaruga que ele tinha em casa da mãe que morreu. 
Antes da confirmação do óbito da tartaruga, já ele um mês antes me tinha dito que ela estava morta dentro do aquário, eu questionei a mãe e ela disse-me que não estava morta, estava a hibernar.
Um dia em que fui entregar o Kukas em casa dela, ela pediu-me para eu ver a tartaruga, para lhe dar uma opinião se de facto estava a hibernar, ou se estaria efectivamente morta. Quando me trouxe o aquário para eu ver, lá estava ela a boiar, outrora verde e castanha e agora Branca, com uma das patas soltas a boiar ao seu lado. Eu disse-lhe que de facto o nosso filho há um mês atrás quando me disse que a tartaruga estava morta, já estava realmente morta, uma vez que já estava num elevado estado de decomposição. Perguntei-lhe se ela não tinha estranhado o facto do bicho não comer, não se mexer, ter mudado de cor e andar uma das patas a boiar ao lado dela. Repondeu-me que achava que estava a hibernar e que no verão voltaria ao estado normal.

Voltando ao chinchila,  hoje vou ter de dar uma explicação ao Kukas sobre o facto de ele já não se encontrar na gaiola. Estou hesitante em contar-lhe a verdade, ou dizer-lhe que ele fugiu, ou que os pais o vieram buscar. 
Também já pensei em comprar um igual e esperar que ele não note a diferença. 

Penso que o mais acertado será contar-lhe a verdade.  Por vezes temos de lidar com questões difíceis, será talvez mais acertado que ele lide com a morte do chinchila e eu cá estarei para lhe responder às perguntas que ele tenha para me fazer. 


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Este é para a miúda

Um destes dias a miúda enviou-me um texto acerca das relações entre mulheres mais novas e homens mais velhos.  Sendo eu mais velho do que a miúda, li atentamente e identifiquei uma série de comportamentos entre a autora do texto e o seu namorado, que facilmente transportei até à minha relação.

O texto estava mais centrado no ponto de vista da autora e naquilo que diferenciava esta sua relação, de relações anteriores com homens da mesma idade.
Pus- me a pensar naquilo que tinha mudado em mim desde que namoro com a miúda. A verdade é que a minha última relação foi com uma mulher dez anos mais nova do que eu e era tão diferente daquela que eu tenho agora com a miúda.

Cheguei facilmente à conclusão de que se hoje em dia tenho uma relação em que me sinto completo, feliz e diferente; não é porque a miúda é mais nova, mas sim por ser especial e única.

Antes de me apaixonar por ela, apaixonei-me pela sua inteligência, pela maneira como ela olhava para o Mundo e sobretudo pela paz que ela me conseguia transmitir.

Foi uma das descobertas mais incríveis da minha vida. A cada dia havia algo novo que me fascinava nela. Era como se eu fosse construindo um puzzle às cegas sem ter qualquer vislumbre da imagem final. As peças apenas se iam encaixando aleatoriamente, mas sempre no sítio correcto.

A forma como os seus olhos mudavam de cor, sem que eu nunca tivesse noção de qual a cor verdadeira deles; o estado em que a cara dela ficava depois de ser atacada por milhares de melgas nos passeios que dávamos pelo jardim; como corou e fugiu depois de eu lhe ter roubado o primeiro beijo; ter- me deixado 3 horas à espera na primeira vez que saímos; como me apertava a cintura com força e encostava a cabeça dela na minha, enquanto atravessávamos a ponte sobre o Tejo quando fomos dar um passeio de Vespa.
Era inevitável que ficasse completamente arrebatado por esta miúda que punha tanta paixão naquilo que de mais importante queria para a vida dela.

Ela ensinou-me a não ter medo. A arriscar. Resgatou-me da letargia em que eu vivia. A miúda um dia decidiu que me iria salvar e salvou.

"O Inferno são os outros" e o meu inferno era eu próprio com o medo que sentia de arriscar e começar do zero. Foi ela quem agarrou a minha mão, me fez levantar e seguir por um outro caminho. Terei sempre essa dívida de gratidão para com ela.

Claro que também tenho noção daquilo que lhe fui dando ao longo deste tempo.  A minha dedicação, respeito, amizade, lealdade e muito amor. É este equilíbrio quase inconsciente que tem alimentado a nossa relação.

A minha miúda é especial não por ser mais nova, mas por ser única. Esta tem sido a aprendizagem que tenho tido desde que a conheço. Não sei se namorar com homens mais velhos ou mulheres mais novas tem vantagens, mas Namorar com a miúda tem sido a maior aventura da minha vida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O Passado tem uma máquina do Tempo

O Passado é um gajo tão estranho. Por vezes estático, inacessível. Não conseguimos chegar-lhe, no entanto quantas vezes ele vem até nós. O Passado é egoísta, não se deixa tocar.

Dá-nos pequenas caixas, repletas de memórias. Umas que ferem, outras que ferem ainda mais porque de tão boas ficaram lá presas. O Passado não se compadece. Ordena-nos que sigamos em frente.

Há uma certa Ditadura nele. Faz-nos reféns de escolhas, de não escolhas... Não nos permite corrigi-lo, no mínimo dá-nos a liberdade de o folhear.

Quando lhe apetece viaja até ao Presente para nos atormentar. Afinal o Passado tem asas e quando decide bate-as e vem ter connosco trazendo com ele tormentas e tempestades que julgámos já extintas.

O Passado não se extingue, não se compadece, não se reforma. Já disse que era egoísta?
Não quero que me traga de volta os fantasmas que ele um dia fechou numa masmorra.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A janela

Tenho saudades de uma janela que dava para um pátio interior. Do lado de dentro dessa janela uma vertigem de sentidos inundava-me.

Não me recordo do que via através da janela, mas tenho tão presente a onda de felicidade que me inundava quando contemplava o exterior através dela.

Guardo em mim todos esses momentos de êxtase. Aquela será sempre a mais bela janela pela qual olhei.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um brinde aos amigos

Sobre os amigos. Dizem ser a par da família com quem podemos sempre contar. Nos bons e nos maus momentos, como diz o clichê. Nunca soube verdadeiramente quantos tenho na minha vida. Tenho amigos, que afinal são apenas conhecidos, conhecidos que se revelaram amigos.

Dizem que quantidade não é sinônimo de qualidade. Concordo em absoluto. No Facebook tenho 574 amigos. Sou um tipo de sorte então. Na verdade não falo com mais de metade desses 574, e daqueles com quem falo a maioria da vezes é para lhes dar os Parabéns no seu dia de aniversário.

Há dois anos atrás eu tinha o meu grupo de amigos. Estávamos sempre juntos nas festas de aniversário, passávamos sempre a passagem de ano juntos. Dizíamos coisas bonitas uns aos outros nas fotografias de grupo no facebook. Éramos o grupo de amigos perfeitos, com vidas perfeitas e com um sentido de amizade incondicional.

Há dois anos separei-me da mãe do meu filho. De repente os meus amigos deixaram de me ligar,  de me convidar para as festas e jantares. De me perguntarem como eu me sentia, se precisava de alguma coisa. O meu grupo de amigos perfeito desmembrou-se.


A boa notícia é que nesse grupo, de repente fez-se uma triagem e apesar de não ter sido uma surpresa assim tão grande para mim, houve alguns deles que desde o primeiro dia estiveram disponíveis para mim. Sem julgamentos, sem reservas. Desse enorme grupo contam-se agora pelos dedos de uma das minhas mãos aqueles que realmente conhecem o termo e o significado de amizade.

Há males que vêm por bem, diz o ditado. A boa notícia é que hoje tenho consciência do que é ter amigos verdadeiros. Pessoas que nos amparam, que se riem e choram connosco. Acima de tudo sei que não estou sozinho, nem preciso de estar, porque tenho pessoas que gostam realmente de mim. Assim como eu sou.

Há uns dias, tínhamos aqui umas obras na cozinha e quando chegámos a casa e vimos a cozinha de pantanas , a miúda disse:me: Porque não ligas ao R e pergunta-lhe se querem ir jantar a algum lado? Estávamos ambos bastante cansados e a precisar de estar com pesssoas de quem gostamos, só para relaxar um par de horas.

Liguei ao R e atendeu a R. Perguntei: olha lá, não têm aí jantar para nós? Resposta imediata: Estamos a chegar a casa, venham cá ter que fazemos algo. Não houve uma pausa, não houve uma Hesitação. Venham, foi a resposta.

O mais surpreendente foi no dia seguinte eu ter recebido uma mensagem do R a agradecer o facto de lhes termos ligado para ir jantar a casa deles. É este o conceito de amizade que me faz sentido. Os amigos serem sempre bem vindos.

Há dois anos não perdi nenhum amigo, há dois anos descobri que tinha amigos verdadeiros.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Ohhh o Trump venceu.

É  impressão minha ou os que hoje se sentem revoltados pela Vitória do Donald Trump, são os mesmos que se divertiam e aplaudiam a fuga do Manel "palito", aquele que disparou contra quatro mulheres, matando duas delas?

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ela até sabe o que é o Músculo esternocleidomastoideo

A miúda vai ter daqui a uma hora o primeiro teste de fogo na faculdade.  Exame de anatomia, o Cadeirão do primeiro semestre.

Antes de começar a estudar as expectativas dela estavam elevadíssimas,  nada menos do que 18. Entretanto quando começou a estudar a sério baixou a fasquia para 14. À  medida que o tempo ia passando ter positiva já seria muito bom.

Hoje a miúda só não quer enlouquecer.

A minha fiel visita

Tenho um amigo que há vinte anos atrás, perdeu a mãe e na mesma altura a namorada de então terminou a relação que tinha com ele. Não aguentou,  teve uma depressão seguida de um esgotamento.

Esse meu amigo vive há vinte anos no passado. Como se o tempo tivesse parado aí. Ouve as músicas que ouvia então, fala das pessoas e dos acontecimentos dessa altura.

Todos os dias vem visitar-me , mais do que uma vez ao meu local de trabalho. As pessoas que trabalham comigo já estão habituadas à sua presença diária.

Faz-me sempre as mesmas perguntas, todas relacionadas com o passado e eu dou-lhe sempre as mesmas respostas.  Fica ali cinco ou dez minutos comigo e sai para ir dar uma volta. Mais tarde irá passar novamente pelo meu escritório e voltará a fazer-me novamente as mesmas perguntas.

Recentemente descobri que ele está com um problema oncológico.  Soube que está a fazer sessões de quimioterapia. Já tentei aborda-lo em relação ao estado de saúde dele, mas cheguei à conclusão que ele não tem a mínima noção do que se está a passar com ele.

Quando estou de ferias ele passa sempre no meu local de trabalho à minha procura e embora lhe digam que só voltarei daqui a 15 dias, ele no dia a seguir lá está novamente a perguntar por mim.

Existe uma estranha relação entre nós.  Quando estamos juntos é como se voltassemos atrás vinte anos no tempo e as nossas conversas giram sempre à volta disso. Não me canso dele, nem de ter de lhe dar sempre as mesmas respostas às mesmas perguntas.

A amizade não tem limites, não tem roupagem, nem nunca se desiste de um amigo.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O miúdo que um dia deixou de o ser

Vou contar a história de um miúdo que eu conheci.  Um miúdo que teve uma infância tão feliz, que uma coisa que sempre o atormentou foi o medo de crescer.

Um miúdo que jogava ao berlinde, ao pião, adorava subir às árvores e fazer delas o seu Castelo. Apaixonado pela sua bicicleta maior do que ele, mas que dominava como ninguém.

Não havia nada que ele tivesse medo, exceptuando palhaços.  Tinha pavor deles, sem nunca perceber a razão de tal temor.

Inevitavelmente o miúdo foi crescendo, deixando de lado a sua inocência e tornando-se cada vez mais fechado nele mesmo. Foi algo demasiado espontâneo para que ele tivesse sequer noção dessa transformação.

Um dia esse miúdo descobriu com um amigo que existiam umas palhilhas a que chamavam panfletos, que se vendiam num café perto de casa e que continham um pó castanho que se fumava numa prata.

Levados pela curiosidade, lá foram os dois comprar um desses panfletos. Foram para casa de um deles, aquele que já tinha visto alguem fumar esse pó e fizeram-no. Sabia mal e fazia-os vomitar. Apesar disso aquilo tinha qualquer coisa de reconfortante. De repente o miúdo voltou a ser miúdo e os medos que entretanto ele vinha sentido à medida que ia crescendo, desapareceram.

Descobriu ali uma coisa que fazia com que não sentisse e isso dava-lhe uma paz tão intensa que acabara de descobrir a forma de não crescer.

O miúdo ainda não sabia, mas acabara de fumar heroína.  Durante algum tempo nada mais tinha interesse. Ele só precisava daquilo para se sentir bem.

Entretanto começaram a aparecer umas dores de manhã,  uma ansiedade crescente que só passava quando ele fumava aquele pó mágico. A liberdade que ele sentia com aquilo começou a transformar-se numa prisão. Numa necessidade cada  cada vez mais crescente.

O céu começou a desabar sobre ele e a descida ao inferno a começar.  Aquilo era tão caro e as desculpas para arranjar dinheiro começavam-Se a esgotar.


Felizmente para ele começou a trabalhar numa empresa que lhe pagava imenso dinheiro. Não precisava de roubar, não precisava de esquemas.

Andou assim mais quatro anos, a viver exclusivamente para poder consumir, a consumir para poder conseguir trabalhar. Aos pais inventava que ia de férias e ia para a barraca de um dealer  e passava lá dias a fio a consumir aquela droga que cada vez o consumia mais.

Nos últimos tempos quando injectava uma seringa no braço chorava. Chorava porque queria parar e não conseguia. Já não havia magia naquilo. Apenas degradação física e mental.

Até que um dia e em desespero foi pedir ajuda aos seus pais, que desconheciam o estado em que o filho estava. Sabiam que ele fumava uns charros,  bebia uns copos, mas ele estava tão distante deles que não faziam a minima ideia do estado em que o menino deles estava.

Os seus pais disseram-lhe que claro que queriam ajudar, mas não faziam a mínima ideia de como o fazer.  A vontade dele parar era tanta, que ele os orientou e lhes disse como o poderiam ajudar. Foi um processo extremamente difícil para todos,  de repente era como se estivessem a conhecer pela primeira vez.

Foi a maior manifestação de amor, entrega, confiança e ausência de julgamento que assisti até hoje.

O miúdo há 20 anos que não usa drogas, nem álcool, mas o processo foi complicado ao ponto de ele quase ter voltado a aprender a viver . Lidar com as outras pessoas, voltar a ter auto-estima,  deixar de se sentir inseguro e sobretudo aprender a lidar com aquilo que sentia. Algo que ele não precisou durante anos.

Hoje o melhor amigo deste miúdo está a passar por esta merda toda mais uma vez e o miúdo sente uma impotência e uma tristeza enorme porque não consegue que ele tenha vontade de parar.




Strange things in my Life.

Por vezes tenho a estranha sensação de que alguém me vigia 24 horas por dia.  Condiciona-me imenso este pensamento recorrente. Especialmente quando estou na casa de banho.

Para vos dar um exemplo, um dia destes dei comigo a imaginar se estas supostas pessoas são fisicas ou imaginárias.  O que poderá fazer toda a diferença.  Sendo físicas serão mulheres, ou homens ao estilo dos tipos da CIA? Se forem imaginárias, serão almas de pessoas do meu passado, ou meros espectros?

O que me deixa mais intrigado é a minha presunção em assumir que a minha vida é assim tão interessante para que alguém perca tempo a escrutina-la.


Não bebo, não uso drogas de tipo algum, portanto não sei se não seria boa ideia apostar em terapia.

Por outro lado, sentir que não estou sozinho também chega a ser reconfortante, nunca se sabe quando poderei precisar de ajuda para trocar um pneu.

domingo, 6 de novembro de 2016

Devolve-me as costas e leva daqui a escápula

Namorar com uma miúda que está a tirar Medicina começa a ficar cada vez mais estranho. Existem hábitos que de normais, passaram a ter contornos surreais.

Um destes dias a miúda pediu-me para lhe fazer uma massagem, como tantas vezes acontece. Normalmente ela deita-se, eu vou buscar um creme hidratante e massajo-lhe as costas. Um pouco mais acima, agora um pouco mais abaixo...

Nesta última vez que me pediu uma massagem eu comecei a massajar-lhe as costas como habitual. Quando começo ela diz-me:
- Massaja-me aí na escápula .
- Onde? pergunto eu.
- Na margem medial da escápula.
- Isso fica onde, pergunto eu desorientado.
- Aí, junto à fossa Subescapular, por cima da face costal.
- É aqui?
- Não, aí onde tens as mãos é a cavidade glenoidal que fica por cima do colo da escápula. é do outro lado que me dói.
 
Tento mais uma vez dar com o local da zona dorida:
- É aqui?
- Não, isso aí é a incísura da escápula, junto ao ângulo Superior.

De repente quebrou-se toda a magia da massagem. Em vez de conseguir visualizar as costas de pele suave da miúda, só me vinha à cabeça que estava a massajar um modelo de esqueleto em tamanho real.


sábado, 5 de novembro de 2016

Sejam bem vindos

Tomei a decisão de não responder aos comentários feitos aos meus textos, porque eles são o que são. Não me faz sentido deturpá-los dando continuidade aquilo que foi escrito.
Se escrevo que estou cansado e explico os motivos de tal cansaço, nada mais tenho a acrescentar. Se partilho que estou em estado de graça porque ao meu lado naquele momento tenho as pessoas que mais amo, que mais dizer?

Escrevo de uma forma quase automática, sem filtros e sem editar. só assim me parece coerente com o propósito pelo qual criei o blogue. Não se trata de arrogância, apenas de uma decisão de não mexer em algo que para mim está da forma que serve o meu propósito.

Tenho consciência das minhas limitações literárias enquanto narrador dos meus textos; mas tal como para mim o mais  importante é fazer desporto e não competir, o mesmo se aplica à minha necessidade de colocar em texto aquilo que estou a sentir no momento.

Deixo em aberto e sem restrições o desejo de quem quer que seja comentar aquilo que escrevo. Seja porque se identificam com algo, ou porque fariam de maneira diferente, ou mesmo porque não concordem com algo daquilo que estão a ler.

O meu Blogue é Democrático, porque escrevo aquilo que quero e deixo que os outros comentem aquilo que lhes apeteça.

Este espaço é demasiado pessoal para que se converta noutra coisa qualquer. É o meu Diário, o meu cofre, o meu reflexo e essencialmente o meu Sacrário.

Todos são bem vindos, vestidos, despidos, com opinião, sem nada para dizer, os doces, os amargos, os crentes e os que em nada acreditam. Este espaço é meu e de que mais o quiser.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Facebook vs Alfred

Já vos ocorreu que o Facebook seja uma espécie de Alfred Thaddeus Crane Pennyworth ,  o mordomo e tutor do bilionário Bruce Wayne, mais conhecido como Batman?
Todas as manhãs quando visito a minha página ela pergunta-me: Em que estás a pensar? Tal como Alfred  funciona como psicológo e conselheiro de Wayne, o Facebook fá-lo comigo. 

Também me relembra que há 4 anos neste dia iniciei amizade com o Zé Antunes e sugere-me memórias de coisas que partilhei há um ano atrás. É por isso também uma espécie de secretário e agenda que me relembra diariamente de factos ocorridos no passado e de eventos que acontecerão no Presente e no Futuro. 

Alfred cuidava de Bruce Wayne com este profissionalismo quase carinhoso. De quem relembra um filho das coisas importantes da vida. Não esquecendo que da mesma forma o Facebook me alerta das pessoas que gostam das minhas fotos e das minhas músicas, funcionando assim como uma espécie de triagem das pessoas realmente importantes. 

Se alguém for mal educado, ele certifica-se de o bloquear, protegendo-me mais uma vez dos vilões. 

Batman estava tão ocupado a combater o crime, que obviamente não tinha tempo para se lembrar de datas de aniversários, dos eventos em que tinha de estar presente, nem da quantidade de coisas importantes que iam acontecendo diariamente na vida dos seus amigos. Era portanto Alfred quem lhe fazia essa gestão.

Obrigado Facebook por seres o meu Alfred e me fazeres sentir um Justiceiro do bem que luta contra o mal.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O cansaço também é permitido às Quintas feiras

Decidi que hoje me irei permitir a sentir cansado. Reservo-me a esse direito sem qualquer problema de consciência.

Trabalho das 09:00 horas às 18.00 horas, com dois fins de semana por mês apenas de folga.
 Tenho de lidar com a minha ex-mulher, que neste momento anda obcecada com piolhos. Já gastou três frascos de produtos diferentes para matar os supostos piolhos que o Kukas tem e que eu teimo em não os conseguir ver. Tenho receio que o puto ande a ficar intoxicado com tanto produto anti-piolhos. Já me informou que no fim de semana lhe vai cortar o cabelo rente.

Sinto-me cansado por ter tomado a decisão de deixar de fumar e não conseguir dormir de noite devido à ansiedade que sinto da privação dos cigarros.

Sinto-me cansado por ter de andar a correr depois de sair do trabalho para ir buscar o Kukas ao Colégio, ter tempo para ele, fazer o jantar, dar um jeito à casa, limpar o cocó das gatas e entregar o miúdo à mãe nos dias em que não fica comigo.

Sinto-me cansado porque estou a fazer um tratamento a um problema de saúde que me acompanha há muitos anos e que me quebra um pouco. Além de que ultimamente também  ando com tonturas e fui medicado com uns comprimidos que aparentemente não fazem efeito.

Sinto-me cansado porque um dos meus melhores amigos está com graves problemas e eu comprometi-me com ele a tirar três noites por semana para o ajudar.

Sinto-me cansado porque também assumi um compromisso quinzenal com uma Comunidade que distribui comida e roupa pelos sem abrigo de Lisboa, que me ocupa duas noites de Domingo mensais onde a miséria que vejo e com que lido me deixa abatido e frustrado .

Além do cansaço, sinto um peso enorme sobre os meus ombros, peso esse que ainda me deixa mais cansado.

Hoje sinto-me cansado, mas também com a consciência de que nada faria diferente.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Porto de abrigo

Hoje acordei com uma vontade imensa de aqui estar, neste pedaço de Paraíso. Respirar o ar que só aqui se respira, sentir os cheiros que aqui abundam. Acordei nostálgico, sem vontade de estar em qualquer outro lugar senão aqui. Existem dias em que lugar nenhum nos pertence, mas em que existe um pedaço do Mundo onde nos podemos refugiar porque lá nos sentimos protegidos. Hoje este é o meu porto de abrigo. https://youtu.be/pybqjwf8w8s

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Memorias revisitadas

Hoje enquanto percorria o caminho pedonal da zona ribeiririnha lembrei-me de um filme que vi no saudoso Cinema King. " As minhas noites são mais belas que os vossos dias" de Andrej Zulaswski.
Resumindo o filme retrata um génio informático com uma rara doença que lhe vai apagando a memória. Ele conhece uma mulher e passam alguns dias e algumas noites juntos. Não direi mais sobre o filme, para que a curiosidade vos leve a procurá-lo.

Lembrei-me dele porque durante o meu passeio, revisitei vários sítios que me trazem muitas memorias. Um banco de jardim onde aconteceu um primeiro beijo. Uma cerca onde um dia duas pessoas se abraçaram de uma forma tão intensa e sentida. Uma porta vermelha no velho cais onde um dia descansei quando tanto precisava de descansar. Um caminho onde dávamos longos passeios e conversávamos sobre assuntos que nos apaixonavam e nos aproximavam.

Recordei-me deste filme porque as minhas memórias são como um tesouro que quero guardar para sempre. Até aquelas que não foram tão boas, mas que fizeram parte de segmentos da minha vida em que me provocaram mudanças. Por vezes é tão difícil mudar, sair da zona de conforto e arriscar em algo incerto, mas que nos pode trazer um bem maior.

 Confesso que me assusta perder todas estas memórias. Despertam-me sentidos, entrelaçam-se em mim como os braços de alguém muito importante nas nossas vidas, que não vimos há muito tempo e que nos vem visitar dando-nos o mais forte dos Abraços

Hoje tive acesso a todas estas memórias e esta manhã foi de certeza mais bela do que as vossas..

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Troquei os cigarros por sorrisos

Fez ontem quinze dias que deixei de fumar. Adoro fumar, é algo que apesar da consciência de todo o mal associado gosto de sentir; acender o cigarro, dar a primeira passa que é sempre a que me sabe melhor, manusea-lo entre os dedos. Gosto do cheiro, do sabor, da forma como me tranquiliza.

Há quinze dias tomei a decisão de deixar de fazer uma das coisas que mais prazer me dá. Não foi pelo mal que faz à saúde, não foi pelo preço exorbitante. Tomei essa decisão depois de olhar para a miúda e ela me ter dito que uma das coisas que a deixava mais triste era eu não parar de fumar e que provavelmente a iria deixar por causa de uma doença associada ao tabaco.

Mais do que as palavras , foi o olhar dela enquanto me dizia o quanto a assustava eu poder contrair uma doença grave provocada pelo tabaco, que me fez tomar essa decisão com efeito imediato. Não quero perder a miúda para uma doença que me leve à morte; mas mais do que isso não quero que os meus actos sejam motivo de tal angústia. A mesma angústia que eu vi nos olhos dela enquanto me dizia o quanto lhe custava eu fumar.

Passaram quinze dias e não está a ser nada fácil. Gosto demasiado daquela merda. Custa-me imenso dormir, concentrar-me . Faço um esforço enorme para ter paciência para as coisas mais insignificantes. Masco pastilhas elásticas, por vezes saio de casa porque parece que a minha cabeça vai explodir e tenho de apanhar ar.

A miúda pergunta-me como está a correr eu respondo sempre que está a correr bem. Na verdade está a correr bem porque há quinze dias que não fumo, independentemente de todo o sofrimento associado. Deixei algo de que gostava muito, por algo bem maior. Ter a noção do quanto ela ficou feliz com esta minha decisão, de que aquilo que ela sente devido a alguns actos meus; medo, tristeza, incerteza, tem muito mais relevância do que qualquer cigarro.

Não deixei de fumar por mim, também não foi por ela. Deixei de fumar porque causava sofrimento em alguém de quem gosto muito e não o fazer seria um acto de egoísmo para com a mulher que eu amo e prometi proteger.

domingo, 30 de outubro de 2016

Kit de emergencia para a miuda

A miúda quando decidiu voltar a estudar, tinha a noção exacta que não iria ser fácil. Se fosse fácil também não era para ela. Decidiu inscrever-se em Medicina, não só por ser algo que a cativa, mas sobretudo pelo desafio.
Desde que ela tomou essa decisão, apoiei incondicionalmente por ter a certeza de que além de ser algo que ela queria muito, também por saber que seria capaz. Que conseguiria alcançar esse objectivo.

Apesar de tudo gostava de poder fazer mais para ajudar. Hoje senti-me um pouco egoista por ter saído de manhã e ter ido passear junto ao rio, enquanto ela estava presa à secretaria a estudar. Sei que foi a escolha foi dela é que é isso que lhe faz sentido.
Precisava de fazer alguma coisa. De que forma poderia contribuir para ajudar a minha miúda e amenizar todo o esforço que ela tem feito nos últimos tempos?     
Ainda pensei escrever uma carta ao Prof. Marcelo para lhe dizer o quão fantástica é a miúda e que ele  podia falar com o Bastonário da Ordem dos Médicos e dar-lhe já a cédula profissional, mas desisti porque o nosso Presidente ainda tem a carta da estudante que não conseguiu entrar em Medicina para ler. Então resolvi ajudar de outra forma. Criar um Kit de emergência para estudantes desesperadas. Aqui vos deixo o meu kit e pode ser que ajude mais alguém.


Final de Domingo

Nada como passar um final de Domingo a ver uns desenhos animados onde uma fatia de pizza com óculos escuros é a melhor amiga de um tipo desdentado chamado Titio Avô...

sábado, 29 de outubro de 2016

O silêncio de um final de dia perfeito

No

Vou falar de algo que me faz alguma confusão. Pai Solteiro. Afinal qual é a diferença entre um pai que vive com a mãe do seu filho e um que viva sozinho?

A responsabilidade, a atenção, a cumplicidade, a interação e a disponibilidade que sinto hoje em relação ao Kukas, são exactamente as mesmas que sentia quando vivia com a mãe dele.

O dia de ontem pode servir como exemplo prático daquilo que estou a falar:
Saí do emprego às 18 horas, fui buscar o Kukas ao Colégio. No carro negociámos como iria ser a nossa noite. Admito que ele é um negociador bastante difícil.  Ficou acordado que chegaríamos a casa e a primeira coisa seria o Kukas tomar banho, ele ainda tentou que primeiro via dois desenhos animados e tomaria banho depois, obviamente o Papá venceu a disputa.

Chegados a casa, fomos directos à casa de banho, cocó seguido de banheira. De seguida foi a escolha do pijama, tarefa também sempre muito discutida. Pijama vestido, fomos para a cozinha, enquanto eu fazia o jantar, ele brincava com os seus bonecos na mesa ao meu lado. Jantar ao lume, tratar das gatas e apanhar a roupa que estava estendida enquanto ele via o Titio Avô na TV.  Tínhamos cerca de 45 minutos antes de jantarmos, fomos então buscar as tropas e planear um ataque nas montanhas dos Açores.

Hora de jantar, depois de o ter chamado cerca de 22 vezes para a mesa, lá apareceu e sentou-se. Assim que se sentou pediu para ir à casa de banho fazer xixi (faz sempre isto) . Hoje o Kukas decidiu que não gostava de arroz. Eu decidi que quem não gostava de arroz, não gostava também de jogar no Tablet nem brincar com bonecos. O arroz lá desapareceu do prato.

Lavar as mãos e os dentes gera sempre alguma discórdia: - Já lavei os dentes ontem papá. Eu respondo: - Já te comprei um presente no Natal passado, então este ano não preciso comprar. A rapidez com que ele foi lavar os dentes foi supersónica.

Hora de ir para a sala relaxar, enquanto o Papá sorri com o resultado do Benfica e depois com o do Sporting, ele usa a minha barriga como base de comando das tropas. Finalmente o sono vence e ele adormece no sofá .

Entretanto a miúda que esteve a trabalhar até às tantas adormece tb ao meu lado. Tenho o meu Príncipe e a minha Princesa exaustos a dormirem, uma das gatas deitadas na minha barriga e a outra aos pés do Kukas.

Reina uma Paz tão acolhedora nesta sala, que me sinto previligiado por ter isto só para mim.
Hora de os deitar, levo o Kukas para a cama dele, enquanto a miúda se arrasta para a nossa cama. Deito-me, abraço-a e ela cede novamente ao cansaço adormecendo nos meus braços. Final perfeito para um dia vivido a correr.

Quatro da manhã, acordo com o choro do Kukas, vou ao quarto dele e ele chora porque diz ter muitas dores nas pernas. É recorrente, a pediatra chama-lhe "dores de crescimento" . Vou buscar o Ben-u-ron e o Voltaren gel. Dou-lhe o xarope e massajo-lhe as pernas com o gel enquanto ele chora e me pede para não parar de o massajar. Fico ali durante meia hora até que finalmente ele adormece e volto para a minha cama.

Oito da manhã, tenho o Kukas deitado ao meu lado a dizer que quer levantar-se e quer beber um leitinho na sala a ver Televisão.

Nada daquilo que relatei aqui é novo para mim, desde o dia em que ele nasceu, esta tem sido a minha realidade; será que os pais casados têm alguém que os substitua com os filhos?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A minha Vertigem convertida em Vertigo por ela.

https://youtu.be/Tgcc5V9Hu3g

 Vou voltar à miúda, a minha miúda. Durante aqueles primeiros dias de descoberta, a insónia apoderou-se de mim. Não dormia, todo o tempo em que ela permanecia na minha cabeça era mágico. As minhas noites sem dormir eram uma espécie de  ritual de contemplação.
Estava a dar inicio à minha Metamorfose. A Crisálida estava a transformar-se em borboleta.

Um turbilhão de sentimentos assolavam-me e eu bebia-os com uma compulsividade consciente. Nada me fazia mais sentido do que aceitar tudo aquilo que aquela miúda provocava em mim.

Deixei o cepticismo e comecei a acreditar na magia; não havia outra forma. Nada daquilo eu tinha experimentado até então. Tornei-me homem de fé e percebi que existem coisas que não são palpáveis, mas que estão lá e que nos enrolam num manto de encanto e de conforto.

Após muitas noites sem dormir, finalmente cedi. Deixei-me entregar nos braços do sono. Foi intenso aquilo que se passou nessa noite enquanto dormia. Tive um dos sonhos mais estranhos de sempre.
Sonhei que estava em Paris, no Centro Georges Pompidou. Enquanto o percorria, fui dar a uma sala onde estava patente uma exposição fotográfica. Todas as fotografias expostas eram rigorosamente iguais; a cara de uma mulher(a miúda).  Fui olhando uma a uma e apesar de todas iguais, em todas elas eu encontrava uma característica diferente. Não conseguia deixar de olhar para elas, aquelas imagens entravam cada vez mais dentro de mim, como se fossem peças de roupa que iam vestindo o meu corpo nú.

Na sala ecoava o Heroes do David Bowie, a atmosfera era densa e tão suave ao mesmo tempo. Eis que olho para o canto da sala e vejo-a ali, a mulher que estava retratada nas fotos. Em pé, de olhar distante, como se só o seu corpo ali estivesse. Quis dirigir-me a ela, queria saber mais sobre aquela mulher que tanto fascínio exerceu em mim. Não consegui, senti que se o fizesse iria estar a arruinar aquele momento que involuntariamente eu tinha conquistado.

Fiquei na sala até o segurança me pedir educadamente para sair, pois o Centro ia fechar.
Sai dali e comecei a deambular por Paris, a noite chegava lentamente conferindo uma luz pálida sobre as ruas empedradas.

Chego a um largo, onde me sinto atraído a entrar numa casa de chá de portas vermelhas. Lá dentro olho em redor e numa mesa lá está ela, a miúda das fotografias que me turvava os sentidos desde que entrei naquela sala de exposições...

Contei este sonho à miúda e ela escreveu um texto acerca da visão dela do meu sonho. Confesso que foi dos textos mais deliciosos que já li. Sobretudo pela simbiose que senti entre o meu sonho e a visão dela do mesmo.

Pedi-lho emprestado para complementar este meu texto e ela depois de muito ponderar acedeu. Aqui fica o Texto da miúda sobre o sonho do rapaz:

 Vertigo

“(…)I, I will be king And you, you will be queen Though nothing will drive them away We can beat them, just for one day(…)”.

A melodia era-lhe familiar. As palavras atingiam-no em parcelas, cujo sentido, sustentado apenas pela memória de um outro tempo. Invadiam-no, numa luta inglória, contra o pensamento em tropel, aturdido pelo caos que o assaltara. Paris, hoje apenas moldura. Pompidou, o suporte físico do espaço que a realidade exigia, mas que no sonho, indiferente.
Naquele momento, em que a fantasia lhe sorveu o real, os sentidos perderam o norte, a melodia marcou o tempo e o resto, apenas cinzas, de uma realidade inútil, subjugada perante a emoção avassaladora.
A imagem repetia-se ao longo da sala do museu. Entrara por curiosidade, pelo gosto amador pela arte da fotografia. Pela ideia de reter o tempo e as lembranças em pequenos fragmentos tocáveis, acessíveis para a eternidade.
Via-se agora entorpecido, perante a presença cativante da imagem daquela mulher multiplicada naquelas paredes.
Percorreu os retratos expostos com a perícia que a obsessão impunha e embora estivesse certo de tratar-se sempre do mesmo, a cada vislumbre a percepção de uma diferença indefinível. Como se da arte, a vida. Como se as imagens ao sabor de cada segundo. Plenas e mutáveis. Como se o tempo, domínio daquela mulher. Sedutoramente imperturbável, sentada à mesa de uma casa de chá entregue às páginas de um livro.
Sabia-a real e a autora daquelas fotografias, auto-retratos, embora nunca a tivesse vislumbrado.
Agora o desejo atingia-lhe o âmago com a sagacidade de lanças de guerra. Sentia-a com cada poro do seu corpo, como se na pele, toda a fome do mundo, pelo aroma do seu perfume. Queria tocá-la com o desespero que assola as paixões impossíveis. Desejava morrer ali, à mercê da espera, escrutiná-la com a minúcia de um mistério insondável permitindo-se, o deslumbre a cada detalhe da sua descoberta.
Se lhe sugerissem que traduzisse por palavras a vertigem que o tomara, teria sido incapaz. Há sensações que cabem apenas no silêncio, conduzidas pela fluidez do pensamento quando desapossado da fria e castradora moldura da razão.
Entregou-se à espera durante horas, cujo devaneio da fantasia fez parecer breves minutos. O aviso do segurança convidando-o a sair acordou-lhe a consciência do tempo real. Que o fim da tarde, hora de fecho. Engoliu a revolta pela injustiça do abandono daquelas imagens ao sabor da noite, da privação ao seu universo, que agora cabia naquela sala, de as usufruir pelo prazer de apenas olhar.

Precisava sentar-se e devolver aos sentidos, a realidade. Vagueou algum tempo até ceder ao chamamento das portas encarnadas de uma casa de chá. Entrou. Lá dentro, mais uma vez a melodia era-lhe conhecida.


(…) You don't move slow And taking steps in my direction The sound resounds, echo (…)”.
 
O chão pareceu fluir-lhe abaixo dos pés quando a cena do retrato lhe surgia agora tão física. Apoiou-se na parede, tentando afastar a tontura que o assolou. Sentia a insanidade a apossar-lhe as entranhas e os órgãos vitais. A completa embriaguez dos sentidos.

“(…) Glaciers melt into the sea I wish the tide would take me over I've been down on my knees And you just keep on getting closer (…)”.
 
Abriu os olhos e o reflexo do seu delírio, intacto.
A arte convertida em vida. Ali estava ela, mulher, intocável, sentada na mesa desta casa de chá entregue à leitura de um livro. Tomado da febre que a paixão violenta evoca avançou ao seu encontro. E com esforço para que as palavras trôpegas soassem audíveis, atreveu-se. “Posso sentar-me?”.
A mulher manteve-se imóvel, sem elevar o olhar. Como se a presença dele, nada. Como se a realidade e a fantasia, dimensões paralelas, intangíveis. Permaneceu de pé por tempo imensurável. Ousou sentar-se, depois. Fitou-a, como se da sua realidade, o privilégio de uma janela para um lugar onírico, para lá do corpóreo e da humanidade do ser. A comoção confiscara-lhe os gestos, sentia-se a cruzar o limite das coisas possíveis, consciente de que em breve aquele momento se dissolveria, tornado memória, jazigo em campo-santo do mundo real.


“(…)Go slow Go slow Go slow Go slow Go slow (…)”.

Deixou-se ficar pela eternidade que lhe coube dentro da música, que ao terminar o atentou para a vida. O êxtase de todos os sentidos. Incapaz de tanto de uma vez apenas, empreendeu esforços no alcance de rasgos de consciência que lhe permitiram conduzir os passos para fora daquele lugar.
Caminhou desorientado pelas ruas rendido perante a inevitabilidade da entrega ao sufocante padrão repetitivo do mundo tocável, convicto de que toda a tristeza do universo se lhe aninhara no peito, jazendo-lhe no corpo autómato.

Enquanto caminhava, alguém lhe tocou o ombro. Aquele perfume. A imagem daquela mulher perante si, que agora lhe tomava a mão, ocupando o limite espacial que lhe possibilitava o raciocínio. Precisou recordar-se de como respirar. Incapaz de ordenar aos músculos do seu corpo qualquer movimento, deixou-se conduzir pelo delírio. Seguiu-a enlaçado nas teias invisíveis da atração, como se cada célula do seu corpo agonizasse pela presença daquele ser. Seguiu-a, conduzido à porta de um prédio e depois pela enorme escadaria que percorreu degrau a degrau até a um apartamento antigo e espaçoso.
Entenderam-se através do olhar, num silêncio onde couberam todas as palavras que a realidade não pode conter. Entenderam-se através do silêncio, comparsa de todas as possibilidades que cabem nos meandros das almas despidas. Todas as respostas estavam naquele momento, como se ali a essência de todas as coisas.
Aproximaram-se rumo à inevitável plenitude da magia do entendimento mútuo. “Ele podia jurar que sentia a temperatura dela a aumentar através dos seus lábios”. Todas as palavras não ditas, inúteis perante tamanha compreensão.
Depois do sonho, o silêncio. Para sempre, subterfúgio das almas que se encontram sem poderem dar a mão.

 
Palavras de S.
Sonho de J.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Por vezes o melhor lugar está aqui ao lado





Hoje quando acordei senti uma vontade enorme de estar num sitio perfeito, acolhedor, quente. Cheguei-me para ti, abracei-te e durante cinco minutos  viajei para esse lugar mágico e único que é a tua presença.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Depressão e prisão de ventre.

Nos últimos dias o Kukas  andava com um ar bastante triste. Apático, pouco expressivo, com uma postura completamente diferente da habitual. Não queria comer, muito sensível e eu questionava-o repetidamente sobre a causa daquela tristeza. Dizia sempre que não estava triste, apenas que tinha sono.

Comentei com a mãe e tentei perceber se em casa dela o estado de espírito dele era semelhante. Ela disse-me que o achava normal. Fiquei ainda mais preocupado, seria um problema comigo? Apesar de tudo isto ele queria sempre ficar a dormir em minha casa, então perguntei-lhe se havia alguma coisa em casa da mamã que o deixasse triste. Também não, foi a resposta dele.

Nos dois últimos dias queixava-se de dores de barriga, mas normalmente ele usa esse estratagema quando não quer comer. Lembrei-me então que a primeira coisa que o kukas faz quando chega a minha casa é ir à casa de banho fazer cocó e chamar-me depois para lhe limpar o rabo e nos últimos dois dias ele nunca fez na minha casa. Ele é tão certo nessa questão, que por norma faz duas ou 3 vezes desde que chega do Colégio até se deitar para dormir. Ontem liguei à mãe e perguntei-lhe se ele ultimamente em casa dela tinha feito cocó e ela respondeu-me que de facto desde Domingo que não fazia. Pedi-lhe para o sentar na sanita e tentar que ele fizesse.

 Passado cerca de uma hora toca o meu telemóvel, atendo e era o Kukas que com uma voz super feliz me disse: - Papá, fiz um cocó gigante e ja não me dói a barriga.

Fiquei aliviado, agora percebo a razão pela qual as mulheres com prisão de ventre são tão dadas a depressões.  Melhor que Prozac, é um bom cocó.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A angústia que não queria companhia

Tinha 41 anos, vivia com a minha ex-mulher e tinha um filho de três anos. Hoje à distância não me consigo lembrar se era feliz, ou sequer se conseguia sentir o que quer que fosse. Ansiava pelo fim do dia para estar com o meu filho, isso lembro-me bem que era a única coisa que me provocava estímulos; estar com o meu Kukas. Sentia-me preso a algo do qual eu não me conseguia libertar. Não sentia Amor, não sentia Paixão, não sentia ódio. Vivia numa letargia permanente e a existência do Kukas já não era suficiente para a minha vida se tornar no mínimo suportável. Não sei também se ansiava por mais do que aquilo que tinha. Como aquelas pessoas que não sentem falta daquilo que não conhecem.

Naquele dia fui à pastelaria onde sempre vou beber café de manhã. Quando entrei ela estava sentada numa mesa, olhei para ela e o ar angustiado com que estava chamou-me a atenção. Nunca havia falado come ela, pedi para me sentar e perguntei-lhe se estava tudo bem, se precisava de algo. Olhou para mim com um ar evasivo e vazio e disse-me que estava tudo bem. Não me convenceu, voltei a questionar se estava bem e ela voltou a dizer que sim e percebi pela sua cara que a minha presença a estava a incomodar.

A miúda estava a trabalhar na porta ao lado da minha há cerca de um ano e eu apesar de já a ter visto várias vezes, nunca havia reparado nela. Pensando melhor, já tinha reparado naquela miúda que todos os dias passava na minha Rua, com um andar apressado e desajeitado e sempre de phones nos ouvidos e que perante aquela visão me fazia sempre esboçar um sorriso. Porém, até aquela manhã no café, nunca havia reparado na miúda do andar desengonçado, desta forma tão cativante.

Quis saber mais sobre aquela pessoa que me despertou de repente tanto mistério e interesse.
Fui escrutinar as redes sociais e lá a encontrei. Um dos seus filmes favoritos, era também o meu. As suas músicas eram também as minhas. A forma como escrevia tocava-me de uma forma que de repente comecei a sentir coisas que há muito não sentia. Tornei-me compulsivo em querer conhecer cada vez mais aquela miúda de ar angustiado. Havia uma certa nostalgia nela que me fascinava. Pedi-lhe amizade numa das redes sociais e só me aceitou algum tempo depois; demasiado tempo para mim na altura.

Começámos finalmente a falar. A cada mensagem trocada, o fascínio por ela aumentava. Descobri finalmente porque naquele dia na pastelaria estava com aquele ar tão angustiado; estava com uma crise de vesícula, cheia de dores e sem paciência para um tipo chato que só lhe fazia perguntas sobre o seu aparente estado de espírito de tristeza e angústia.

A partir daquela manhã, o meu estado vegetativo começou lentamente a desaparecer. De repente um turbilhão de sentimentos inundou-me. Confesso que por mais gratificante que fosse, era-me igualmente muito difícil lidar com tudo aquilo que de repente começava a despertar em mim. Hoje sei que fui salvo por aquela miúda, a minha miúda. Era um ser desalinhado que graças a uma pessoa completamente improvável,  comecei a querer mais, a desejar um caminho que me levasse de novo à vida, que me fizesse chorar e rir, que me levasse a arriscar sem medo de cair.

Voltarei noutro dia à miúda do andar desajeitado, tenho tanto a dizer sobre ela e sobre a forma como ela me salvou de mim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Kukas, Patokas e o Papá

Desde o primeiro dia de vida do meu filho percebi que o meu Mundo tal como o conhecia havia mudado para sempre. Uma espécie de upgrade com a responsabilidade de fazer actualizações diárias.
Já tanto se falou sobre o amor e a paixão, tanto se dissertou sobre estas questões tão metafísicas.

 No dia em que o Kukas nasceu compreendi finalmente o que é  Amar, mais do que percebê-lo, senti-o. O Amor é aquela coisa que nos consome, de uma forma tão quente e tão suave que nos desperta novos sentidos até aqui desconhecidos. No Amor tudo cabe, tudo faz sentido e mesmo o medo que por vezes acarreta torna-se tão leve que o peso se transforma em conforto.
Amo-te Filho.


domingo, 23 de outubro de 2016

Kukas nos Açores


No ano passado quando me separei da mãe do meu filho, fui pela primeira vez aos Açores, mais concretamente a São Miguel. Fui com a pessoa com quem partilho hoje a minha vida. Uma mulher fantástica que me devolveu a capacidade de voltar a sentir. Nessa viagem além do deslumbramento provocado pela ilha, encontrei um lugar que sem eu saber, já me pertencia por direito( parece mesmo daqueles clichés tipo Gustavo Santos, ou Paulo Coelho).
Este ano eu e a Minnie ( assim baptizada pelo meu filho), decidimos vir de novo a São Miguel e trazer o Kukas connosco. Quando lhe dissemos que vínhamos os três de férias aos Açores, ficou excitadissimo. Todos os dias perguntava quantos dias faltavam m para irmos de férias: - Faltam três meses filho. Isso são quantos dias papá? São noventa dias filho. Mostra com os dedos papá. Oh, isso são ainda muitos dias Papá.

Assim foram todos os dias durante três meses até que finalmente chegou o tão ansiado dia. Era hoje que íamos de férias para os Açores. No avião ficamos em frente a três pessoas com idade de reformados. Não, ficámos em frente a três velhos chatos como o caralho; para uma delas era o seu baptismo de voo, a mesma que me deu uma cacetada na cabeça que me projectou os óculos pelo corredor do avião. Não parou quieta durante todo o voo, dando joelhadas no banco da minha namorada como se tivesse passado todo o voo a lutar muay thay.  O fato de o Kukas dizer repetidamente que o aviao ia cair também não deve ter sido grande ajuda.
Finalmente lá aterrámos e fomos à procura de um táxi para nos levar a casa de uma amiga que nos iria emprestar o carro durante a nossa estada na ilha. No táxi, depois de o taxista nos questionar sobre o destino, o Kukas perguntou- nos se o senhor estava a falar inglês.

A Minnie tinha uma surpresa preparada, havia feito uma reserva no Hotel Terranostra para a nossa primeira noite. Uma suíte fabulosa, com acesso à piscina do jardim, à piscina interior, sauna, banho turco, etc..  O Kukas quando viu o Hotel, disse: - Uau, que chique. Antes de chegarmos ao Hotel fizemos uma paragem na lagoa do Congro. Para mim uma das mais belas de São Miguel. Lugar místico onde reina um silêncio e uma paz tão únicos, que só ali os encontrei.
Chegados ao Hotel, vestimos os nossos robes brancos, agarrámos nas toalhas e lá fomos para as piscinas exteriores com água a 39 graus centígrados. Estava ali o Paraíso e nós no meio dele. Pouco importa que os nossos fatos de banho fiquem castanhos para sempre, ou que o nosso cabelo precise de doses indústrias de amaciador para se conseguir desembaraçar, aquela água vale qualquer sacrifício.

Hora de almoço e lá fomos pela vila das Furnas à procura de um sítio onde comer. Enquanto andávamos encontrámos um que pelas Fotos expostas dos pratos, nos deixou com grandes dúvidas, ainda assim a fome venceu a potencial pouca qualidade da comida. Olhando para a carta, um dos pratos do dia era o famoso Cozido das Furnas, já o tínhamos provado no ano passado no restaurante onde é considerado o melhor da região e não tínhamos gostado assim tanto. Decisão difícil, escolher um restaurante manhoso, e pedir um prato que feito no melhor restaurante não era assim tão bom. Óptima decisão afinal, o cozido estava fantástico. Até o Kukas que a princípio fez birra porque queria batatas fritas, acabou por comer tudo aquilo que lhe coloquei no prato.



Quantum Entanglement

Sexo e pizza

Já salientei o facto de vivermos a mil à hora. Hoje, Sábado, ambos fomos trabalhar. Ultimamente a abstinência tem reinado cá em casa. Quando finalmente chegamos à cama o cansaço e o sono não nos deixam tirar a roupa. Sinto falta dessa intimidade, de fazer amor com a miúda.

 Quando às 19 horas entrámos  em casa comecei a planear a nossa noite; tratar das gatas, fazer o jantar, descansar um pouco enquanto víssemos o telejornal e finalmente pinar. A miúda sugeriu algo diferente: Colocar a pizza no forno, e irmos a correr para a cama pinar enquanto a pizza ficava pronta.  Na embalagem o tempo de cozedura era de 6 a 7 minutos. Não havia tempo a perder, fui a correr baixar a temperatura do forno de 200 graus, para 170 na esperança de ganhar mais 2 ou 3 minutos. Despi-me entre a cozinha e o quarto, saltámos os preliminares e tentámos pinar sem fodermos a pizza. Missão cumprida.

 Ansiamos por Fevereiro, final dos exames para nos entregarmos um ao outro durante um pouco mais do que o tempo que uma pizza ultra-congelada demora a cozer no forno.

A sugestão dela veio a confirmar-se bastante sensata, uma vez que após jantarmos, deitámo-nos no sofá a ver o Sérgio Rossi disfarçado de Mariza no Carnaval de Torres Vedras e eis que toca o telefone das urgências. Um cão com uma otite. Despimos os pijamas, acabados de vestir e lá fui levar a miúda à Clínica. Deixei-a e vim para casa rir-me com o Jorge Jesus a lamentar-se porque empatou o jogo com o Tondela porque o sacana do árbitro concedeu 1 minuto a menos nos descontos.

Entretanto a miúda chega a casa, passavam largos minutos da meia noite. Decidimos ir para a cama, porque ambos tinhamos de acordar cedo, eu para vir trabalhar e ela para ir estudar Anatomia. Assim que ela vestiu o pijama, o telefone das urgências voltou a tocar ( confesso que olhei para ela e não contive uma enorme gargalhada, ela nem queria acreditar), era uma senhora que tinha um cão que estava a chorar e mais uma vez, despimos o pijama e lá fui solidário levá-la novamente à Clínica.

Voltei novamente para casa e para recuperar a boa disposição que tinha ficado perdida quando me roubaram a miúda duas vezes nesta noite, fui rever o Sérgio Rossi.
Ela voltou, deitou-se na cama ao meu lado e adormecemos em uníssono, cansados mas juntos finalmente.

sábado, 22 de outubro de 2016

Aconchego

São 21 horas. Estás deitada na sala ao meu lado com a tua cabeça sobre o meu ombro. Olho para ti e adormeceste. Acordaste às 06 da manhã, foste para a faculdade onde estás a tirar Medicina. Saíste das aulas a correr para apanhares o comboio que te trás para o teu emprego onde ficarás até às 20.

Vens para casa, trazes o peso do Curso e os casos complicados que te surgiram no emprego nesse dia. O teu ar é cansado, mas ainda assim sorris porque estás a concretizar o teu sonho.

Enquanto sinto a tua baba inundar-me o peito, experimento um misto de orgulho e de conforto. Orgulho na mulher que está aqui deitada ao meu lado e que luta diariamente pelos objectivos que traçou para a sua vida e conforto por sentir que aqui nos meus braços nada de mal te vai acontecer.

O meu braço começa a ficar dormente, mas não ouso sequer tirá-lo debaixo da tua cabeça; o meu sacrifício comparado com o teu nada pesa.

Quando te conheci fiz-te algumas promessas, todas elas cumpridas até ao dia de hoje. A mais importante que te fiz foi a de que te iria sempre proteger. Quero que os teus sonhos sejam também os meus, que as tuas vitórias sejam também as minhas e que a tua felicidade seja uma constante.
Enquanto dormes, exausta, mas tranquila, recordo tudo aquilo que já me deste. A tua entrega, a tua esperança que muitas vezes me emprestaste por a minha andar perdida.

Antes de chegares a casa, aspirei-a, fiz o jantar, limpei o cocó das nossas gatas, apanhei a roupa que estava estendida e assim tive-te um bocadinho só para mim, sem precisares de fazer mais do que me dares uma hora da tua companhia. Hoje dou mais valor ao Tempo, aproveito os segundos, porque cada segundo é importante. Vives a mil à hora, vivemos a mil à hora, mas quando conseguimos parar e termo-nos um para o outro tudo faz sentido e vale a pena.

Enquanto dormes nos meus braços eu  sei que o teu lugar é ali naquele exacto momento e que eu não quereria estar senão ali, junto a ti.